Dez minutos para as sete da manhã. Seu Genesco, 70 anos de idade e pintor de paredes aposentado, assiste à movimentação do banco da praça onde está sentado. Diz que no tempo dele as pessoas sabiam fazer protesto, mas hoje essa molecada de universidade já não tem os ideais dos anos 70 e 80; escutam música ruim e bebem coca-cola. Estudantes na praça Dr. Carlos gritam palavras de ordem e usam apitos de festa infantil, fazendo um barulho ensurdecedor. Nas lojas e prédios do centro de Montes Claros curiosos olham pelas janelas e portas para saber o que está acontecendo. Também, o movimento só foi divulgado na internet, principalmente no twitter, site que a maioria das pessoas não têm acesso ou não conhecem.

Seu Genesco, nascido num tempo onde as pessoas sabiam fazer bagunça. Concorda com o movimento e não gosta do atual prefeito, mas hoje em dia prefere ver a banda passar.
O movimento #ForaTadeu iniciou na internet e teve sua segunda visita às ruas no dia 20 de março, um sábado qualquer. Até então solenemente ignorado pela imprensa local, mesmo tendo alcançando o Trending Topics Brasil semanas atrás, desta vez contou com a presença tímida de alguns jornais televisivos, como o Canal20 (Mastercabo) e InterTV (Globo). O maior lucro do evento foi para o seu Zé, ambulante vendedor de picolés, que aumentou em 100% as vendas no dia. “Hoje tem churrasco em casa”.
Por volta de oito horas e dez minutos da manhã já exisitia um tapete de cartazes contra a atual administração extendido no chão da praça. Pessoas seguindo para o trabalho paravam para ler e perguntar o que estava acontecendo logo que desciam do ônibus, mas não ficavam muito: passeata é divertido e cívico mas o que paga as contas é o trabalho e este não aceita atrasos.

Precavida, a manifestante tem escrito no rosto o objetivo de sua presença, caso perca a voz por causa do esforço gritando.
Enquanto o protesto se desenrolava, manifestantes se aproximavam de ônibus e carros parados no sinal vermelho pra mostrar cartazes aos motoristas e passageiros. Alguns buzinavam, alguns fechavam o vidro. Aparentemete, nenhum dos curiosos que ali assistiam ao protesto discordam dos manifestantes. Todos, quando perguntados, acham mesmo que o trabalho do governo não vem correspondendo às expectativas. Fabrício, lavador de carros na praça da Matriz, concorda com o protesto por ter sido demitido do antigo trabalho na prefeitura. Concorda com os manifestantes e dá um grito de “Fora Tadeu” enquanto responde à pergunta.
Num dado momento a massa de gente começa uma romaria pelas ruas do centro da cidade. Mais curiosos saem nas portas e janelas para se inteirar do que está acontecendo e assistir ao “apitaço” e o trânsito lento. Alguns olham pela fresta e ao terem a câmera apontada para seus rostos, entram rápidamente pra dentro de casa. Medo? Talvez timidez.

Manifestante puxa o coro "putaquepariu, é o pior prefeito do Brasil" mesmo sem meios de mensurar o valor qualitativo da eficiência da administração
Ao chegar à Praça de Esportes, famoso reduto de prostitutas e malandros durante a noite e camelôs e trabalhadores durante o dia, mais pessoas se juntam à massa e acompanham o coro. Palavras de ordem são ditas e o negócio todo estava realmente muito ordenado. Não houveram incidentes com a polícia e a manifestação seguiu calma. De acordo com algumas placas o movimento #ForaTadeu é apartidário e apolítico. Apartidário talvez, apolítico nunca. O ser humano é político em todas as suas relações.
O tão esperado Programa CQC (Custe o que custar) da Band não deu as caras no evento. Provavelmente porque custaria muito. Mesmo assim, era grande a presença de fotógrafos amadores, prontos para levar suas imagens para o twitter e blogs para mostrar como foi aos que não puderam comparecer, e claro, enviar algumas fotos para o queridinho dos jovens com consciência política, Marcelo Tas.

Já pelo fim, o calor e o cansaço é evidente, e comprar um refrigerante pra matar a sede já não parece tão capitalista.
Tereza trabalha como atendente de balcão numa pastelaria qualquer ali nas imediações da Praça. Acha que o pessoal exagerou e estão lutando por uma causa natimorta. Perderam o foco, assim como algumas fotografias apresentadas com este texto. O certo seria #AcordaTadeu, um movimento voltado para a cobrança, e não expulsão. Na prática o protesto mudaria de emprego, ao invés de leão-de-chácara enxotando pessoas pra fora de estabelecimentos, seria firma de cobrança, que liga todos os dias azucrinando a vida do camarada, mas não coloca ninguém na rua. “Mas de qualquer forma, eu não sei de nada não, eu sou uma moça besta, eu nasci foi na roça, não é?”. É Tereza, é verdade. Tirar prefeito é meio complicado.
Como manifestante também cansa, a passeata chega ao fim na mesma praça de inicio, a praça Dr. Carlos. Discursos são feitos e cidadãos falam no púpito para trabalhadores, agora já esperando o ônibus para voltar pra casa. Salva de palmas e o movimento se encerra. Pego meu rumo. Fotógrafo também cansa.
Seu Genesco talvez esteja certo sobre a situação da cidade. Seus dois filhos, formados em economia e letras pela Unimontes, não seguiram carreira pois não acharam emprego. Trabalham hoje como pintores, como o pai trabalhou um dia. Não viram a passeata porque não pegam onibus pra trabalhar. Os tempos estão mudando.
Os fotógrafos lambe-lambe da praça não registraram o evento.
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1. Texto e fotos por Neto Macedo.
2. Mais fotos do protesto no meu flickr.
3. Se você está em alguma foto e não gostou, é só enviar um email ou comentário que retiro a foto imediatamente. =)
4. Clique nas fotos para ampliar.
5. Não estou nem a favor nem contra o protesto, nem a favor nem contra o prefeito. Fui só como visitante para registrar minhas próprias impressões do evento.

